T’ai Kung, “Os seis ensinamentos secretos”

Capa de "Os seis ensinamentos secretos", de T'ai KungFalar-se na área da Gestão em Sun Tzu e n’ “A arte da guerra” é um chavão. Apesar de ser um livro que tem, certamente, algumas máximas interessantes que fica bem afixar em powerpoints e posts de blogues, apesar de ser um livro que é um marco no pensamento estratégico – seja ele qual for, bélico ou empresarial – sempre me pareceu, como em muitos outros fenómenos de popularidade, que se fala mais dele do que o que se o leu realmente.

Esta afirmação não pretende diminuir o valor da obra de Sun Tzu, mas denunciar que mesmo os que efectivamente leram, muitas vezes tendem a empolar a importância do texto, porque outros, antes deles, também o fizeram. E fica mal dizer o contrário, mesmo que não se tenha entendido exactamente o alcance e a aplicabilidade da obra. É um ciclo vicioso, que justifica edições atrás de edições, algumas delas, até de luxo, como esta, que teve direito a um vídeo no Youtube e tudo:

Pessoalmente, li “A arte da guerra” pelo menos três vezes, portanto, suponho que, não obstante haver certamente quem tenha lido mais algumas  – não duvido até que haja quem tenha feito dele a sua bíblia – posso dizer que estou bastante acima da média da maioria dos leitores da obra.

Por isso é que, tal como vos prometi, vos venho aconselhar este outro livro, muito menos conhecido e que me parece deveras mais interessante, porque é, antes de mais, bem mais pragmático e menos metafórico.

Na realidade, “A arte da guerra” não é metafórica em si: para ser possível estabelecer o paralelo com a Gestão Estratégica, foi necessário tomar o texto como uma grande metáfora, o que provoca alguns problemas de transposição em determinados momentos.

Não vou dizer que isso não acontece neste caso. Mas como o âmbito da obra de T’ai Kung é diferente do da Sun Tzu, torna-se mais fácil de concretizar as máximas deste em acções práticas aplicáveis aos nossos dias e aos nossos contextos, do que o outro.

Isto porque se o tema de Sun Tzu é a estratégia (nomeadamente, como o próprio nome indica, bélica), a de T’ai Kung é a subversão (política, digamos, mas que é um tema muito mais próximo do tema empresarial que a guerra propriamente dita), sendo que a guerra, o conflito directo, o confronto, é um tema muito mais secundário, n’ “Os seis ensinamentos secretos” do que n’ “A arte da guerra”.

Curiosamente, isso não faz dele menos realista – bem pelo contrário: para T’ai Kung, a vitória é o que importa, e esta tem de ser conseguida a qualquer preço. É essa frieza de atitude que aliena o pensamento da ala mais neo-renascentista da Gestão e que favorece, por contraste, Sun Tzu.

Por outro lado, é um discurso que choca com o estereótipo da suposta maneira de estar Zen Oriental, que insistimos em comprar, como turistas à procura de souvenirs de uma dita orientalidade, que continuam à procura de folclore new age artificial, numa era desencantada de si mesma (que são a confirmação desse mesmo desencanto).

Segundo a belíssima introdução de Francisco Abreu – que contribui também para a obra com a revisão da tradução da única tradução Ocidental da obra para Inglês, bem como as notas e uma série de apêndices, com destaque para uma muito útil cronologia das dinastias Chinesas que irei usar mais vezes, confesso – não se sabe qual das duas obras é que surgiu primeiro.

Debruçando-se sobre um momento-chave da vida política da China antiga, isto é, a viragem da dinastia Shang para a dinastia Chou (sensivelmente século XI A. C. ), a obra chegou a ser proibida durante muito tempo, dado o potencial subversivo que encerrava.

A narrativa, sob a forma de diálogo, apresenta-nos o conselheiro T’ai Kung a dar todo o tipo de conselhos aos reis de Chou (primeiro ao rei Wen e depois, ao seu filho, o rei Wu), de como eles poderão levar a sua mais pequena, mas próspera província, a derrubar o governo – muito mais poderoso – dos Shang – o que efectivamente aconteceu, justamente porque não usaram de métodos ortodoxos.

Debaixo da mensagem mais óbvia, do «vale tudo», a qualquer custo, para se chegar onde se quer chegar – um “os fins justificam os meios” que lembra o Maquiavel que só surgirá daí a vinte séculos – a obra lança importantes pistas sobre liderança, lealdade e reputação, que escapam aos mais sensíveis:

  • aquele que quer vencer, deve fazê-lo sempre com a apoio legítimo do seu povo e não com o medo, mostrando, por contraste, a tirania e a imperfeição do adversário
  • o mais forte perde face ao mais fraco se não souber manter o apoio popular e usar do excesso de poder, sendo injusto ou imoral

E, acima de tudo,

 

Consegui despertar a vossa curiosidade? Vão descobrir este ilustre desconhecido e deixem-me a vossa opinião.

Se gosta deste tema, aconselhamos:

Charles J. Fombrun & Cees B. M. Van Riel: "Fame & fortune - how successful companies build winning reputations"Charles J. Fombrun & Cees B. M. Van Riel

Fame & Fortune – How successful companies build winning reputations

FT Press

 

 

J. Martins Lampreia: capa do livro "Da Gestão de Crise ao Marketing de Crise"J. Martins Lampreia

Da Gestão de Crise ao Marketing de Crise

Texto Editores

 

 

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2 thoughts on “T’ai Kung, “Os seis ensinamentos secretos”

  1. Todo conhecimento e valido principalmente quando direcionado para nossas necessidades de conquista independente da área de atuação profissional ou pessoal.

    • Exactamente, Bruno. Daí acharmos ser importante dar destaque a esta obra, em detrimento de outra da qual todo o restante mercado editorial se cansa em promover, como se mais nada pudesse ser referido. Ficamos contentes que tenha gostado. Volte sempre que desejar.

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