ClickSummit, 2014, 22 de Novembro: Paulo Colaço – Escrever discursos: passar a mensagem (página 3)

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Falhas e gralhas frequentes

Tudo isto, até aqui exposto, faz parte das regras do como fazer bem. Mas há também que ter em conta o que não pode acontecer. Um exemplo disso são as repetições não-intencionais. As repetições intencionais podem conferir ritmo a um discurso. Veja-se, por exemplo, a repetição intencional de “I had a dream” no início de cada conjunto de ideias, no já citado discurso de Martin Luther King, Jr.:

Estas repetições são escolhas estéticas, figuras de estilo e conferem um traço ao texto. Já as repetições não-intencionais são facilmente detectáveis pelo público e são lidas negativamente, como sendo, por exemplo, sinal de desleixo, desatenção ou até inépica. Se, como o orador exemplifica, estou a falar de actas, não faz sentido que escreva três vezes na mesma frase a palavra “acta”. Há que encontrar outras formas de as referenciar, como, por exemplo, recorrer a sinónimos (ver a parte final sobre esta questão).

Efeito da repetição: monotonia

A repetição causa monotonia e tédio

Também devem evitar-se as chamadas “gorduras do texto” – advérbios de modo e adjectivos em excesso. Aliás, o uso de palavras em excesso leva-nos para o ponto seguinte: é importante, como já referimos, evitar frases e períodos longos, porque dificultam a compreensão e retenção de ideias.

Finalmente, evitar de igual modo ideias separadas por muitas vírgulas ou por parêntesis – que são sempre desvios do «veio central» do texto – demasiado longos, que dispersam a atenção do público.

Para finalizar o tema, P. Colaço demorou-se ainda algum tempo sobre alguns erros comuns de gramática e estilo, nomeadamente erros de concordância e redundâncias.

Falar incorrectamente é igual a ter mau gosto a vestir

Somos sensíveis para a falta de gosto no vestir. Mas ainda não percebemos que falar incorrectamente é semelhante.

O orador salientou que não atentar ao bem falar a língua em que nos expressamos equivale a ignorar o impacto que o aspecto tem sobre a percepção que os outros sobre nós constroem – o que a nós, no Blogue, muito agrada, dada que é algo que nos faz particular prurido. É semelhante a não saber as regras do saber estar socialmente e cometer uma gafe que nos expõe como menos qualificados. Entre outras coisas, ele sugeriu ler mais e procurar obter feedback junto dos que nos são mais proximos sobre o modo como nos conduzimos, para ajudar a colmatar estas e outras falhas. O que nos traz ao último ponto:

 

Avaliação

Como não poderia deixar de ser, há que avaliar o nosso desempenho, pois é o que nos permite identificar erros, evoluir, tornar-nos melhores. Portanto, é importante manter o espírito de auto-avaliação constante.

A avaliação assenta, assim em três pilares:

  • mensagem
  • forma
  • público

Em primeiro lugar, há que perceber se a mensagem passou. Em última instância, deseja-se que surjam acções, da parte do público, que sejam consentâneas com a vontade expressa pelo discurso. E esse é sempre o teste final da eficácia de um discurso, porque, recordemo-nos, os discursos não são exercícios de estilo, mas uma ferramenta que conduz a um fim que se pretende produzir.

Depois, já no segundo pilar, é importante perceber se o nosso tom de voz, o nosso ritmo, a nossa indumentária, as nossas expressões faciais, contacto visual, gestos e restante linguagem corporal foi adequada.

Finalmente, é importante perceber o grau de empatia estabelecido. Se ele não for satisfatório, é importante perceber o que correu mal – e nestes casos, é pelo menos ou a forma ou conteúdo que falhou, quando não as duas coisas. Daí – e até porque ninguém é bom juiz em causa própria, como o próprio orador refere – não há como ter um controlo externo, de alguém bem intencionado e capaz, que possa dar uma avaliação justa e útil para futuros melhoramentos.

Em modo de encerramento, o orador sugeriu ainda a leitura de alguns livros: “Dez discursos histórios”, de Barak Obama e “50 grandes discursos da História”, de vários célebres oradores (incluindo alguns dos referidos ao longo desta conferência). São as versões integrais dos discursos – ideais para avaliar um discurso na sua estrutura. Além disso, sugeriu o Prontuário Ortográfico da Plátano Editora, um Vocabulário, da Didáctica Editora, um dicionário de sinónimos e antónimos (no caso, o da Universal) e outro, de expressões correntes, como livros de consulta.

 

Conclusão

Discursar é a arte de passar uma mensagem. Mais ainda, é produzir uma reacção desejada. O valor de um discurso mede-se pela sua eficácia, não no exercício da técnica linguística pela técnica linguística. Apesar disso, continua a ser importante atentar ao estilo e correcção linguística, de modo a impactar positivamente o público que se quer influenciar. Uma boa preparação do discurso é essencial, mas também atentar a quem se pretende influenciar. É sempre possível melhorar e nada melhor para o fazer do que recorrer a uma boa monitorização do desempenho, interna e externa.

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