Resolvendo os conflitos internos

Sobre a Dissonância Cognitiva

Leon Festinger, como vimos, granjeou um nome seguro dentro da Psicologia Organizacional graças a diversas descobertas acerca do modo de pensar das pessoas quando integradas em organizações ao longo da primeira metade da década de 50 – descobertas que explicavam parte do comportamento dessas mesmas pessoas e, mais ainda, a forma como se desenvolviam as suas redes de afinidades. Porém, o seu maior triunfo ocorrerá  em 1956, quando ele publica o livro “When prophecy fails” (“Quando a profecia falha”), surgido do estudo de caso de um culto apocalíptico.

Os cultos messiânicos e apocalípticos caracterizam-se por dinâmicas muito próprias e onde claramente se verifica o poder da dissonância cognitiva

Como outros cultos semelhantes, a seita vivia agregado pela ideia do fim do mundo a ocorrer em data certa, sob forma de um dilúvio. Quando, no entanto, a data anunciada chegou e nada (obviamente) aconteceu, em vez de – ao contrário do se poderia esperar – o grupo se dissolver (dada a notória falta do sentido que originalmente os uniria), com a excepção dos membros menos comprometidos – que efectivamente assumiram que tinham sido enganados – os restantes, surpreendentemente, ainda se agarraram mais à comunidade e às crenças inerentes a esta.

A explicação com que resolveram a discrepância entre o previsto e a realidade é que teria sido justamente o seu fervor religioso que evitara a catástrofe, saindo o seu fanatismo reforçado e não enfraquecido, como poderíamos racionalmente projectar.

Ao contrário do que se esperaria, a não-ocorrência de eventos nefastos, como tragédias colectivas (por exemplo, terramotos), apenas reforça a certeza de que estes estão maias próximos de acontecer, em vez do contrário

Esta observação e outra, sobre um terramoto que não tendo tido as consequências esperadas, sedimentou rumores de futuros terramotos piores – em vez de os desencorajar – culminarão um ano mais tarde, no desenvolvimento da sua teoria mais célebre de todas, onde aborda o mecanismo da Dissonância Cognitiva – de que, aliás, já aqui havíamos falado, se bem se recordam.

O conceito é o seguinte, mais uma vez e agora, em termos mais genéricos: ao longo da nossa vida acumulamos cognições – noções, conceitos – acerca do nosso mundo, que nos ajudam a organizar a nossa presença no contexto que nos é próprio e nos permitem funcionar nele. Elas provêm da nossa educação, da nossa experiência, dos factos sociais e socializantes com que nos deparamos nos grupos de que fazemos parte.

Perante dois valores em conflito, como resolvemos a tensão?

Como resolve a tensão interna alguém que se vê perante duas escolhas incompatíveis e igualmente impactantes?

Muitas, poderão ser harmónicas entre si ou até de relação irrelevante. Porém, e dada a sua variedade, é natural que ocorram conflitos entre algumas delas ou entre elas e determinados comportamentos (no fundo, derivados de outras cognições).

Movidos que somos, segundo Festinger, por uma certa congruência ou harmonia cognitiva, sentimos um natural desconforto perante esta contradição interna e tentamos sanar a discrepância. Esse diferencial e o stress interno associado a ela são, no fundo, a dissonância cognitiva. Quanto maior for a magnitude da dissonância, maior será a pressão para a resolver.

Para resolver a inconsistência e reencontrar o equilíbrio, o indivíduo poderá optar entre  várias soluções:

  • por exemplo, ao hierarquizar as cognições, poderá escolher uma delas em detrimento da outra, desvalorizando aquela que é menos forte;
  • pode, inclusive, alterar o comportamento que determinada cognição implicaria, subsequentemente reduzindo a sua importância face à outra, preferida;
  • poderá também escolher selectivamente informação que reduza de algum modo a dissonância – como uma informação que aponte para a inconsistência do conflito e aparentemente desfaça a contradição;
  • a própria percepção dos factos pode ser afectada, bem como os factos anteriores podem vir a ser reinterpretados, procurando justificar atitudes, reduzir a sua importância ou eliminando o que nos perturba completamente, até… entre outros mecanismos.

Nenhuma destas estratégias é garantida de sucesso, no entanto, é a estes mecanismos que recorremos diariamente, quando, por exemplo, tomamos opções e depois procuramos racionalizá-las.

No fundo, o conceito de dissonância cognitiva é a continuidade do que Festinger já havia proposto e explica fenómenos como a aculturação que ocorre aquando à assimilação de um grupo.

A aculturação na sua forma mais extrema

A aculturação exige a reestruturação de valores face a um contexto que os hierarquiza de outro modo

Facilmente se depreende o impacto com que estes grupos de que fazemos parte instalam em nós preconceitos que tendem a alterar a nossa hierarquização de cognições, bem como a afectar a nossa percepção, a nossa atitude e o nosso comportamento face às diversas situações novas com que nos deparamos. É assim que se propagam os mitos partilhados e se formam as atitudes colectivas face a um evento, por exemplo.

Para quem lida com reputações, este ponto é particularmente sensível, pois ilustra as dificuldades que podem ocorrer quando se entra em choque com pressupostos latentes que podem antagonizar os planos a organização. Com as novas organizações globais, este tipo de conflitos podem surgir muito mais comummente e, portanto, é absolutamente essencial ter algum tipo de plano que a eles dê resposta.

É importante resolver conflitos e discrepâncias entre a teoria e a prática

Por outro lado, denuncia a importância de se tomarem decisões estratégias baseadas no que a marca pode realmente corroborar e não em projecções idealistas do que «parece bem» que esta seja, não respeitando a prova de congruência, no final.

Pelo que expomos neste e no artigo anterior, Festinger teve vários pontos altos na sua carreira. No entanto, e apesar de todos estes sucessos, ele irá abandonar o campo da Psicologia, para, num gesto surpreendente, dedicar-se a outras actividades, nomeadamente, a Arqueologia.

Enquanto o resto dos seus colegas viam este gesto como um estranho – senão amargo – afastamento de Festinger da área em que mais se notabilizara, este replicava, pelo contrário, que continuava no mesmo ramo mais que nunca: segundo o próprio, tratava-se apenas de tentar perceber a fundo as razões antigas que explicariam as nossas dinâmicas actuais. Uma espécie de arqueosociologia, portanto.

Num dos seus últimos esforços, ele dedicava-se justamente a perceber como é que uma ideia é rejeitada ou aceite no seio de uma dada cultura. Nesse sentido, procurou perceber o modo como mudanças tecnológicas foram percepcionadas e integradas… durante o Império Bizantino.

Festinger terminou os seus dias a estudar o impacto de novas tecnologias na antiga sociedade do Império Bizantino

Infelizmente, o cancro que lhe foi diagnosticado e para o qual ele não procurou tratamento tiraram-lhe a vida antes que pudesse publicar quaisquer conclusões, o que foi claramente uma perda para todos nós.

Tudo o que nos deixou, porém, continua extremamente presente e relevante, como puderam facilmente verificar pelo exposto. Das bases que lançou, surgiram imensas aplicações, na educação, na mudança social, na saúde e até, claro… na Comunicação Empresarial. A ele, seguiram-se outros, como os que vamos abordar no próximo artigo.

Leitor: de que modo pode um novo líder ou até qualquer outro novo membro de um dado colectivo lidar com um discrepância óbvia entre uma teoria exposta e uma teoria em uso discrepante com esta? De que modo, aliás, se deixou moldar por cognições partilhadas em grupos dos quais fez parte?

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