A proximidade que nos liga

Sobre Leon Festinger, a propinquidade, a proximidade física e a sua relação com a comunicação, a comunicação instrumental e a comparação social

Mas ainda podemos apontar um terceiro grande nome da Psicologia tocado pelo autor da Teoria de Campo, para além de Robert Bales e Eric Trist. Leon Festinger foi outro dos nomes influenciado por Kurt Lewin e que se dedicaria a estas questões, mais precisamente à influência de condicionantes do ambiente interno de uma organização sobre a interacção estabelecida entre os membros da organização.

Leon Festinger, que estudou fenómenos como a relação entre a proximidade física e as relações afectivas ou os mecanismos de comparação social

Leon Festinger (1919 – 1989)

Kurt Lewin, aliás, foi o orientador de Festinger, que ficou conhecido como aquele que demonstrou definitivamente a inadequação da Teoria do Condicionamento Behaviorista, por mecanismos de  estímulo-resposta, como não-aplicável aos seres humanos, sem que isso – contrariamente às expectativas Behavioristas – acarretasse qualquer empobrecimento do rigor científico das suas conclusões.

Na realidade, foi o gosto particular pelo rigor que afastou durante anos Festinger da área da Psicologia Social, para a qual Lewin se havia, entretanto, voltado. Em vez disso, ele preferiu dedicar-se aos estudos iniciais de Kurt Lewin (por exemplo, a Teoria de Campo) e é só em 1945, quando entra para o Centro de Estudos de Dinâmicas de Grupo, que Lewin entretanto fundara no Instituto Tecnológico de Massachusetts (o conhecido MIT), se começa realmente a dedicar ao tema. Dois anos depois, Lewin morre e Festinger toma o seu lugar.

Fotografia do Media Lab do MIT

O Media Lab do MIT, onde se fazem estudos sobre novas aplicações da tecnologia – um dos muitos edifícios deste renomado instituto

É justamente por causa desse gosto pelo rigor científico, aliás, que Festinger não só era a favor da sua aplicação na Psicologia, como inclusive investiu na introdução de protocolos de investigação em laboratório que assegurassem resultados mais exactos – mais do que o que os próprios Behavioristas no seu fascínio pela racionalidade haviam feito, repare-se.

Mais além, ele  defendia que muito do estudo da Psicologia deveria ser preferencialmente feito em contexto e não em condições «sanitizadas» – dada a especificidade do seu campo de estudo (o comportamento humano) – como acontecia na maioria da investigação científica. De certo modo, isto lembra-nos a crítica de Maslow, que dizia que a Psicologia se tinha tornado uma catalogação da deformação em vez de uma observação do não-patológico.

Maslow criticava a visão da Psicologia como o estudo do patológico, em vez de um estudo do estado ideal

Será a Psicologia apenas uma ciência que estuda o desvio?

Foi precisamente a observação naturalista – observação em contexto real – que lhe rendeu o seu primeiro sucesso: ao analisar (um pouco como Trist) a influência que a arquitectura e as condições ecológicas tinham sobre o comportamento de grupos de estudantes, quase por acaso, Festinger nota o impacto que a proximidade física tem sobre a afinidade gerada entre pessoas (o chamado efeito de proximidade).

O  fenómeno é interessante de observar, pois a investigação de Festinger demonstra que, mais do que gostos comuns ou até a beleza, o estatuto ou qualquer outro factor que o senso comum pudesse indicar, a proximidade física, essa si, ao proporcionar encontros passivos, que por sua vez proporcionam a chamada “propinquidade” – proximidade, atracção entre as pessoas – proporciona, por extensão, uma maior criação de laços afectivos.

Exemplo de observação naturalista ou em contexto

A observação naturalista implica o mínimo de interferência do investigador, que se coloca como um cronista de acontecimentos e, posteriormente, um intérprete dos mesmos.

Nas suas experiências, os investigadores do MIT perceberam, por exemplo, que em acomodações de dois andares, os estudantes que viviam junto das escadas que estabeleciam a comunicação entre os dois pisos tendiam consistentemente a ter mais amigos do outro andar que os restantes colegas do mesmo piso.

Isto, para nós, tem extrema relevância, pois permite-nos entender melhor de que maneira as relações informais podem ser estimuladas ou suprimidas, numa organização, pela mera disposição física, bem como a importância dos layouts das operações nas organizações.

A distribuição do espaço fisico (layout) implica a modelação das dinâmicas sociais numa organização

O espaço fisico e o modo como ele condiciona as nossas interacções

Um outro fenómeno detectado durante estas observações relacionava-se justamente com as relações informais estabelecidas entre membros do mesmo grupo: a proximidade de opiniões presentes num grupo estava em directa proporção com a relação afectiva desenvolvida pelos membros desse mesmo grupo entre si – ou seja, pessoas fisicamente mais próximas tenderão a pensar de modo mais semelhante.

Isto ocorre porque os grupos tendem para a estabilidade, usando a comunicação como uma forma de reduzir a discrepância entre os seus membros. A este tipo de comunicação, em oposição à comunicação de mera expressão, Festinger chamou de comunicação instrumental.

Pessoas com maior afinidade emotiva tendem a concordar mais entre si

As implicações destas descobertas estão, aliás, nos dias de hoje a ser repescadas, pois permitem-nos compreender melhor o modo como a reputação e a influência se estabelecem e se propagam, por exemplo, entre utilizadores de redes sociais digitais.

No artigo que surgirá desta investigação, que ele publica em 1950, Leon Festinger estabelece, em termos científicos, como a pressão de grupo – como força que impõe e molda atitudes e comportamentos dos indivíduos a padrões de conformidade colectiva – forja a própria realidade do indivíduo como uma realidade social: ou seja, ele explica como o padrão de veracidade da realidade do indivíduo é constantemente actualizado perante a opinião vigente no grupo de que ele faz parte. Esta força, seria, no fundo, a influência do campo, de que Kurt Lewin havia falado duas décadas antes na já referida Teoria de Campo.

A pressão de grupo influencia quer o código ético e moral do indivíduo que dele quer fazer parte, como até o seu padrão de veracidade e a sua definição de real

A pressão de grupo influencia quer o código ético e moral do indivíduo que dele quer fazer parte, como até o seu padrão de veracidade e a sua definição de real

Alguns anos mais tarde, em 1954, Festinger irá publicar um outro artigo altamente influente, em que explica que os nossos padrões de auto-avaliação surgem por comparação com os nossos pares. A este mecanismo, ele chamou comparação social.

Na realidade, este mecanismo acaba por ser uma extensão do mecanismo descrito por ele em 1950 – a percepção grupal de avaliação de atitudes estende-se para a avaliação de capacidades (e desempenhos e resultados) do próprio indivíduo e ele tende a comparar-se com quem lhe é semelhante.

Mas o momento de sucesso mais memorável para Leon Festinger estava ainda para acontecer. E essa questão será abordada em separado, em novo artigo, dentro de cerca de 15 dias.

Até lá, leitor, partilhe connosco a sua reflexão sobre este tema: até que ponto a presença física (ou a ausência) foram determinantes para encontros na sua vida, que o afectaram pessoal ou profissionalmente? Até que ponto essas ausências e presenças modelaram essas relações? Partilhe as suas experiências no comentários.

CTA de subscrição do Blogue Comunicação Empresarial PT

Para profissionais e estudantes da área da Comunicação Empresarial: há uma comunidade LinkedIn aberta a discussão e networking. Esteja onde está toda a gente: junte-se a nós.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s