Novas e velhas banhas-da-cobra

A propósito de Peter Drucker, uma crítica às modas e buzzwords

No artigo anterior (o primeiro de uma série de três) apresentamos Peter Drucker como um nome de referência da Gestão Moderna. Na altura, falou-se um pouco do seu percurso académico, da sua carreira e da sua vida pessoal; hoje, no segundo artigo da série, continuaremos a falar dele, abordando alguns dos principais pontos da sua teoria.

A perspectiva de Drucker é rica e fresca (mesmo para os nossos dias), muito em parte, como dissemos, devido à sua atitude – livre de pedantismos – de integrar conceitos, exemplos e conhecimentos de outras áreas, normalmente dissociadas da área da Gestão (como a Sociologia, a Filosofia, a Arte e até a Religião) [Nota: como nós fizemos, por exemplo, quando citamos uma fábula Sufi, para ilustrar a estratégia de análise de 360º]

Uma visão parcial não consegue ver o todo

Clique na imagem para ler a fábula Sufi do elefante

Contudo, tal atitude pode ser aquilo a que se chama um «pau de dois bicos»: se, por um lado, e como acima dizemos, introduz profundidade ao estudo e compreensão destas questões, por outro, pode confundir-se com e até parecer legitimar, aos olhos menos atentos, postulados e actividades que ou revelam ser apenas velhos lugares-comuns com novos nomes, ou ideias que não são usadas… porque são realmente más.

Sempre que há uma área que se consegue popularizar, previsivelmente surge quem a ela se associe, capitalizando no «embalo» do entusiasmo que à volta dela se está a gerar. Na altura de Drucker, era a Gestão. Actualmente, é no Marketing (mais especificamente até, no chamado “Marketing Digital”) que se trava a guerra das buzzwords, dos soundbites, dos gurus e das perspectivas pseudo-revolucionárias.

Algumas buzzwords à volta do Marketing Digital

Buzzwords

Em todas as areas e em todas as épocas, haverá sempre quem faça realmente bom trabalho de fundo e quem apenas diga generalidades que, de tão abstractas, não podem propriamente ser contrariadas (nem tão-pouco confirmadas) ou que arrastem outros para abismos muitas vezes facilmente evitáveis com o uso de um pouco de bom senso. Tal como o próprio Drucker costumava dizer, cabe-nos a nós olhar e ver, realmente, com olhos de ver, o que precisa ser feito – não necessariamente o que queremos fazer.

Desde logo adivinhando esta tendência para tanto joio e pouco trigo, Drucker é o primeiro a denunciar estas pseudo-revoluções e «banhas-da-cobra» e a demarcar-se delas: apesar de o termo “guru” lhe ter sido aplicado várias vezes, Drucker desdenhou sempre da honra, dizendo que essa distinção só era usada porque “charlatão” era demasiado comprido para caber nos títulos.

Entre as modas e as buzzwords, é difícil, por vezes, perceber o que é embuste e o que é realmente útiil

Curiosamente, esta é uma das tais lições que Drucker nos deixou e que mais do que nunca parece que nos está a passar ao lado: muitos são os que até, bem intencionados, tentam construir o seu «marketing pessoal» (uma buzzword em si mesma), posicionando-se como gurus dentro de um determinado tema, mais pelos seus interesses pessoais, do que pelo gosto de realmente deixar algo para a comunidade que à volta deles se agrega.

Assim justificarem todo um ciclo de vendas, um mercado de livros, seminários, formações, etc. que passa por si, sem que realmente tragam algo de novo ou, pelo menos, útil, aos que neles depositam o seu tempo e atenção, quando não até o seu dinheiro. Infelizmente, esta não é a única lição de Drucker ainda negligenciada, como verão pelo artigo de hoje.

O estilo espirituoso e inteligente de Drucker é a consequência natural da sua enorme visão, que se verifica a cada passo. Por exemplo, o autor propunha, já no seu tempo – década de 40 e subsequentes, o início da chamada Era da Abundância, em que a procura superava a oferta – que o objectivo último das empresas não é nem maximizar o lucro nem vender mais, mas sim servir o seu cliente.

Os anos 50, plenos de entusiasmo e perspectivas de crescimento económico

Da Corrida ao Espaço, até à descoberta de novos materiais, da explosão da moda à implantação definitiva da televisão, dos grandes ícones intemporais à promessa do novo urbanismo… os anos 50, plenos de vigor e entusiasmo, conforme o Mundo procurava deixar o horror das duas Guerras Mundiais para trás e encarava as perspectivas de um Admirável Mundo Novo.

Se ainda hoje esta postura é pioneira na aplicação – já que muitos dizem isto, mas poucos realmente o fazem – imagine-se na altura , em que a necessidade de ter o cliente em atenção parecia ser redundante, quando estes compravam por vontade própria, sem necessidade de grande incentivo, pelo simples prazer de consumir. Tal como P. Drucker previu, as circunstâncias acabaram por mudar. Porém, como se tudo permanecesse nesssa época, ficamos com o mantra, mas as acções continuam a negar as supostas intenções.

Drucker gostava de fazer avançar as organizações através do questionar sistemático dos pressupostos sobre os quais estas trabalhavamprincipalmente os pressupostos da gestão de topo. Recorde-se o conflito insolúvel entre a General Motors e a sua obra “Concept of the Corporation” (“Conceito de Sociedade Comercial”), publicado em 1946, abordado no artigo anterior. Por isso, não é de estranhar que ele se predisponha, sem qualquer pejo, a enfrentar o status quo.

Capa da primeira edição de

Capa da primeira edição de “Concept of the Corporation”, de Peter Drucker (1946)

No próximo artigo, encerraremos este pequeno ciclo de três artigos dedicados ao autor, falando um pouco mais das suas controversas – mas perspicazes – ideias e alguns dos eixos segundo os quais Drucker previa que a Gestão Moderna em breve se passaria a pautar.

Leitor: já alguma vez passou pela sensação de ter investido – tempo, dinheiro, atenção – num livro, numa formação, numa conferência, para vir a descobrir que o/a autor/a viviam mais de reputação do que do que realmente conseguiam entregar? Se sim, partilhe connosco essa experiência.

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