A pirâmide da felicidade

Sobre Maslow e a Teoria da Hierarquia das Necessidades

Poderia ser brincadeira, mas não é, bem pelo contrário: a 1 de Abril de 1908 nasce um investigador cujo legado para o conhecimento do Homem e da sua psicologia, até pessoas leigas nas matérias mais profundas do comportamento humano são capazes de perceber e explicar. Estou a falar de Abraham Maslow, que nos deixou o conceito de hierarquia de necessidades, cujo diagrama todos nós certamente devemos ter encontrado em algum ponto da nossa vida.

Abraham Maslow, criador da teoria da hierarquia das necessidades

Abraham Maslow (1908-1970)

Maslow foi sempre uma figura original dentro do meio da Psicologia. Ele achava que esta se focava demasiado no lado patológico da mente humana, quando o seu objectivo deveria ser justamente o oposto, ou seja, estudar o que faz as pessoas felizes e auto-realizadas. A sua proposta é considerada, por isso mesmo, tipicamente “positiva”. É, aliás, Maslow quem posiciona a Escola Humanista, como a “terceira força” da Psicologia.

Já em relação ao campo da Motivação, é em 1943 que Maslow fica para a história, quando publica “Uma teoria acerca da motivação humana”.  Depois desta publicação, nada mais será igual, dentro desta área de estudo: ancorando-se nos trabalhos de Murray, de que falamos no artigo anterior  – e ao contrário deste, que agrupava as necessidades humanas em apenas duas grandes famílias – Maslow agrupa as necessidades em cinco planos ou níveis diferentes.

Esquema da Pirâmide das Necessidades, segundo a teoria de Abraham Maslow

A famosa Pirâmide das Necessidades, segundo Maslow

Habitualmente representando-se este modelo como uma pirâmide, para dar ênfase à ideia de “hierarquia”, refira-se, no entanto, que essa imagem icónica pela qual a teoria de Maslow é mais conhecida é, na realidade, espúria. Maslow, ao contrário do que o senso comum pensa, nunca representou o seu sistema desse modo, nem nunca se referiu a ele como tal.

Os níveis das necessidades, segundo o autor, seriam estes:

  • num primeiro nível estão as necessidades ditas fisiológicas simples – necessidades como respirar, comida, água, sexo, sono, excreção e, basicamente, todo e qualquer processo de homeostasia fisiológica;
  • no nível seguinte, necessidades de segurança – podendo esta envolver segurança física, propriamente dita, isto é, integridade do corpo, mas também estabilidade de carreira, saúde, integridade de propriedade e de recursos;
  • no terceiro nível, necessidades de afecto e pertença ou sociais – amizade, laços familiares, intimidade sexual;
  • em seguida, em quarto lugar, necessidades de estima – começando, naturalmente, pelo respeito mútuo (o respeito dos pares e o respeito aos pares),  mas também o sentido de conquista, a confiança em si mesmo e, num nível superior, a auto-estima;
  • finalmente, as necessidades de auto-realização – moralidade, criatividade, espontaneidade, capacidade de resolução de problemas, ausência de preconceitos e poder de encaixe dos factos.

A interpretação do conceito como uma pirâmidade terá sido feita por outra pessoa, portanto – provavelmente um editor, para ilustrar a sua interpretação do sistema de Maslow – mas é sob esta forma que o modelo é recordado e mesmo nos nossos dias ensinado, como se tivesse sido o próprio autor a dispô-lo deste modo.

O Homem, animal civilizado

O estado de evolução em que estamos – e as necessidades que ele gera – só serão possíveis, no fundo, segundo Maslow, porque outras necessidade mais primárias são normalmente colmatadas. Mas não se verificando tal, facilmente regredimos para estágios mais basais.

Devido a esta apresentação, o modelo tem sido observado como sendo relativamente rígido e linear, quando Maslow, por seu lado, sempre referiu que ele este era bastante fluído. No seu tempo, o autor chegou a admitir, por exemplo, que necessidades de níveis diferentes podem coexistir no mesmo ser humano simultaneamente, o que abre portas a uma visão mais profunda de um esquema aparentemente bidimensional.

Apesar desta suposta fluidez, Maslow referia ainda assim a importância de algumas precedências, aparentemente óbvias: por exemplo, somente quando uma pessoa cumprisse os dois primeiros níveis – relativamente essenciais para a sobrevivência e estabilidade do ser, enquanto ser vivo – poderia ela pensar no nível seguinte, que Maslow considerava ser caracterizado por outro tipo de necessidades, mais psicológicas. Isto é, somente depois de assegurar a sua integridade, poderia o ser humano partilhar-se com outros e com estes estabelecer laços afectivos.

Tom Hanks procura sociabilizar com um objecto inanimado, mas isso só acontece após ter respondido a necessidades mais básicas, que asseguram a integridade do seu ser

Não obstante o Homem ser um animal social, segundo Maslow, ele não consegue atentar a necessidades superiores (como a necessidade de sociabilizar) sem ter as necessidades básicas minimamente satisfeitas (Tom Hanks, no filme de 2000, “Cast away”, ou em Português, “O Náufrago”)

Por outro lado, só faria sentido pensar-se em estima (por parte de outros e depois, do ser por si próprio) quando as necessidades de afecto e pertença estivessem asseguradas; assim como também só seria possível considerar o nível da auto-realização –  sendo este último nível, atendendo ao carácter positivista da abordagem de Maslow, o fim último do esforço humano – apenas após as necessidades de estima estarem igualmente ultrapassadas.

Por essa razão Maslow chamou aos quatro primeiros níveis “Níveis D“, de “deficitários”, pois sem a satisfação deles, no global, seria impossível alguém considerar a auto-realização. Aliás, ele vai mais longe e postula que não basta cumprir os quatro Níveis D: não será possível, segundo este autor, chegar ao quinto nível sem ter completamente dominado os quatro Níveis D.

Sucesso e auto-realização dependem do domínio das necessidades de nível mais básico, segundo Abraham Maslow

A auto-realização depende da satisfação das necessidades de ordem anterior, segundo Maslow

Esta visão viria a ser criticada por outras abordagens posteriores, entre outras razões, por ser uma visão ocidentalizada da felicidade, que seria impossível transpor para todos os contextos sociais.

A discussão que se abriu, porém, como é habitual nestes meios, permitiu que fossem lançadas questões, que, por sua vez, abriram campo a outras teorias, mais ou menos relacionadas com a de Maslow, como, por exemplo, as teorias de Herzberg e de McLelland, sobre as quais falaremos em breve. E é esse o mérito de grandes Homens como Maslow: não é o de descobrirem a Verdade, mas de nos porem mais próximos da mesma.

Ser feliz: o objectivo derradeiro de toda a acção humana

Em última instância, o objectivo de cada ser humano é ser feliz

Por causa do seu contributo pioneiro para a Psicologia, no global – e mais especificamente, para este campo da Motivação – Abraham Maslow será sempre recordado como um Humanista convicto, que procurou devolver ao Homem a sua dimensão mais nobre: a capacidade de ser feliz.

Leitor: se tivesse que organizar as necessidades apontadas por Maslow faria alguma alteração ao esquema proposto? O que é mais importante para si, para o fazer feliz?

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