O mecanismo da Motivação

Sobre Henry Murray e as necessidades

O Gestaltismo reagiu ao determinismo inerente às teorias behaviorista e psicanalítica

O forte determinismo do Behaviorismo (principalmente na corrente mais extrema, o Behaviorismo Radical) e, em certa medida, da própria Psicanálise – correntes de que temos vindo a falar nos últimos posts – eram alvos de crítica directa para a Gestalt.

Episódios particularmente marcantes, como as experiências de Elton Mayo na fábrica da Western Electric Company (abordadas no último artigo), ainda que salientassem a importância do meio (neste caso, social), revelavam o impacto que  as emoções (portanto, que os mecanismos internos) tinham sobre a motivação, e esta, por sua vez, sobre o desempenho – com as implicações previsiveis para áreas como a Liderança e a Gestão.

Mais ainda, e como seria sempre apanágio desta escola, esta confluência de factores sublinhava a necessidade de se analisar os fenómenos humanos como eventos que necessitam sempre de uma matriz, um contexto, isto é, de serem vistos como parte de um todo (gestalt), para serem compreendidos – uma visão em sistema, sinérgica, em vez de um apanhado de eventos ad hoc, pontuais, individuais, descontextualizados.

A Gestalt queria devolver face humana aos mecanismos da consciência

Como nem só de pão vive o Homem, o estudo da Motivação teria necessariamente de acabar por receber forte influência daquela que foi chamada a Escola Humanista, integrando assim uma dimensão anímica mais complexa e à escala humana, na investigação e estudo dos fenómenos da mente, para lá de meras reacções fisiológicas, tiques biológicos, condicionamentos mecânicos.

Até então, os Behavioristas faziam do ser humano, no fundo, um simples resultado de factores externos a si mesmo, sem contemplar a realidade pragmática de que uma resposta pode ter várias causas e uma causa pode ter várias respostas diferentes. A ideia de que R = f (S) ou, se referirmos, C = f (A) não parecia traduzir – mau-grado a vontade de Watson – o processo de decisão subjacente às escolhas que as pessoas tomam, por ser demasiado simplista. Daí o Gestaltista Kurt Lewin ter proposto a fórmula C = f (P,A), como sabemos.

Superego, Ego e Id

Por outro lado, a Psicanálise, por maior mérito que tivesse por ter introduzido a noção de que a «alma» humana era mais complexa e profunda do que aquilo que conscientemente ela aparentava ser (ao propor a estrutura tripartida da mente humana, dividida em Consciente, Subconsciente e Inconsciente, que dariam posteriormente origem aos conceitos de Super-ego, Ego e Id) parecia retirar ao Homem a possibilidade de tomar decisões racionais, dominado este por mecanismos e pulsões inconscientes, sublimadas em acções conscientes, meramente simbólicas – uma marioneta dessas mesmas forças, cujo controlo (senão a consciência) lhe escapavam.

A Escola Humanista posicionar-se-á a si mesma como a terceira força dentro da Psicologia, com o Behaviorismo, a ser a segunda, e a Psicanálise, a primeira. O seu objectivo era devolver o carácter nobre ao Homem, como um ser dotado de criatividade, poder de escolha e, acima de tudo, o potencial para se auto-realizar e ser feliz. Estudar o que motiva as pessoas e as torna consequentemente felizes, surge como uma extensão natural das preocupações centrais desta nova teoria.

Todos temos direito a cumprirmos a vida que desejamos

Foram variados os contributos e as circunstâncias que levaram ao surgimento da linha Humanista, podendo encontrar-se raízes para esta abordagem ao ser humano até entre os filósofos Gregos; contudo, é o Gestaltismo, com a sua visão holística, sistémica, sinérgia de todos os fenómenos, como dissemos, que lhe dará consistência, enquanto abordagem distinta e aplicada ao campo do estudo da consciência humana.

Tornou-se claro, desde Hawthorne, que o campo do estudo da Motivação, a par do da Liderança, exigia uma atenção especializada. Porém, foi apenas em 1938 que um novo marco foi estabelecido – ou seja, cerca de 11 anos depois das experiências na fábrica de componentes eléctricos.

Henry Murray, psicólogo preocupado com as questões da Motivação

Henry Murray (1893-1988)

É nesta data que Henry Murray (ele próprio, originalmente, um Psicanalista da linhagem do discípulo mais importante de Freud, Carl Gustav Jung) classifica as necessidades humanas em dois grandes grupos, na sua obra “Explorations in Personality”.

Murray ficara já conhecido por ter desenvolvido o que se chamam os testes situacionais, em que se determinam aptidões de candidato através de testes em contexto realista (uma técnica usada ainda hoje em acções de recrutamento).

Hitler, em 1943

Hitler, em 1943

Ele também foi responsável por traçar o perfil psicológico de Hitler em 1943. Numa nota bem menos positiva, ele teria estado envolvido no escândalo MK Ultras, que daria nascimento ao Unabomber, o erudito matemático e professor universitário bombista que atacou diversas instituições por razões ideológicas [leia aqui o seu manifesto em Português] – o que explica, de certo modo, o facto de a memória deste investigador ter caído sob um certo manto de silêncio nos meios em que estas questões são abordadas.

Retrato-robot de Theodore Kaczynski, o Unabomber

Theodore Kaczynski, o Unabomber (retrato-robot)

Não obstante esta passagem da sua vida, estamos de certo modo a devolver alguma dignidade ao valor intelectual de Murray, com este artigo, pois a sua importância antecede esta contribuição mais negra. Explorando, portanto, a sua teoria de Motivação de Murray, diremos que ele dividia a generalidade das necessidades humanas em dois grandes grupos:

  • as necessidades primárias ou viscerogénicas – necessidades de natureza biológica, envolvidas na nossa sobrevivência e manutenção do nosso corpo físico resultantes de estados meramente fisiológicos (sede, fome, sono) e que são partilhadas por todo e qualquer ser vivo
  • as necessidades secundárias ou psicogénicas – que, derivando das primeiras, são inerentes à existência de uma mente, e, nesta acepção, exclusivas dos seres humanos: necessidades aprendidas ao longo da vida, pela interacção com o meio físico, social e cultural

Murray descreve o mecanismo comportamental humano de um modo esquemático deveras interessante: o estado desejado – e o ponto de partida da explicação – seria o estado homeostático, em que a pessoa não sente qualquer necessidade.

O aparecimento de um défice levaria ao desenvolvimento da necessidade, um estado de noção da falta, que geraria, por sua vez, o impulso, a pressão (que podia ser interna ou externa) de aplacar esse défice, essa ausência. A necessidade desencadearia, então, comportamentos visando a supressão do défice. Se eficazes, o estado de homeostasia seria reposto, até nova perturbação ocorrer.

Mecanismo segundo o qual a Motivação se processava, segundo Murray

Murray desenvolveria, a partir deste esquema, a chamada Personologia, uma teoria da personalidade, baseando-se nestes conceito de necessidade, de pressão e thema – padrões de pressões e comportamentos que ocorrem à volta de contextos específicos.

Independentemente desta, com a publicação do seu sistema de classificação de necessidades, Murray, ainda que entretanto esquecido, terá lançado as bases para uma série de posteriores realizações da teoria geral da Motivação, incluindo uma que já é quase um lugar-comum, dentro deste campo e sobre a qual falaremos no próximo artigo.

Leitor: que necessidades é que o motivam a si?

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