O Todo e as Partes

Sobre a Gestalt, Kurt Lewin e a Teoria de Campo

Watson e Skinner, inspirados pelos trabalhos de Pavlov e pelas suas próprias investigações, propunham uma distopia de seres humanos perfeitamente condicionados, mas desprovidos da liberdade de escolher. Debaixo da linha dos radares do Behaviorismo, no entanto, algo mais estava a acontecer, que desejava devolver ao Homem a dignidade de que os Behavioristas pareciam alegremente prescindir.

Quer o Estruturalismo, quer o Funcionalismo tinham ambos ainda uma visão atómica dos fenómenos mentais. O Behaviorismo, na sua redução do comportamento humano a uma simples resultante do meio também não parecia estar a dar a melhor resposta à pergunta fundamental da Psicologia.

Max Wertheimer, e o princípio original da Gestalt: os elementos não podem ser dissociados do todo

Max Wertheimer (1880-1943)

Em resposta a todas estas questões, surge, na Alemanha e na Áustria, a Escola da Gestalt [gueshtalteh] – palavra que poderá ser traduzida, grosso-modo, como “forma, conjunto, todo” – ou Gestaltismo.

O grande postulado desta nova abordagem – que Max Wertheimer, um dos seus nomes mais sonantes, enunciou em 1924 – é que os elementos não podem ser dissociados do todo. O objectivo do Gestaltismo seria estudar os vários «todos» para os compreender: “a+b” não é apenas “a” e “b”, mas um terceiro, “c”.

O todo dá o significado às partes, assim como um tijolo num muro ganha um significado diferente de fora dele

Gestaltismo: lembro-me sempre de uma imagem no meu livro de Psicologia que procurava explicar esta escola, dando o exemplo de um tijolo, que isolado representava isso mesmo, um tijolo, e num muro ganhava um novo significado – parte de um muro, com todas as significações associadas a isso.

A Gestalt, que se debruçou bastante sobre os fenómenos da percepção, acreditava que o todo é  maior que a soma das partes. Transpondo para a área da Gestão e da Liderança, a Gestalt irá ter um impacto determinante sobre as teorias da Motivação. Recordam-se que quando falamos dos papéis clássicos do Gestor – Planear, Organizar, Dirigir e Controlar – dissemos que a terceira função compreendia os parâmetros Liderança, Comunicação e Motivação?

Dirigir: motivar, comunicar, liderar

Pois é justamente graças à Gestalt que a Motivação dos indivíduos começa a fazer parte das preocupações dos psicólogos das organizações, acabando por influenciar, naturalmente, a equação das Teorias de Liderança e, daí, a das de Gestão. O primeiro grande responsável por isso é Kurt Lewin, que, influenciado pela matriz conceptual do Gestaltismo, propõe a Teoria de Campo, como explicação do comportamento humano, em 1935-36.

Segundo Kurt Lewin, a motivação humana – e, por extensão, o comportamento – só poderiam ser entendidos quando analisado de forma sistémica, isto é, em sistema, ou seja, integrados num contexto. As variações do comportamento humano só poderiam ser explicadas pela percepção que o indivíduo tem de si mesmo e do meio em que este insere, bem como das interacções que são estabelecidas entre ambos. À natureza simultânea destes factores, Lewin chamou coexistência dos factos.

Kurt Lewin, criador da Teoria de Campo

Kurt Lewin (1890-1947)

O “campo” que dá nome à sua teoria, é o conjunto de factos que coexistem à volta de um indivíduo e que são interdependentes, formando o seu espaço vital. Um indivíduo poderá fazer parte de vários campos vitais simultaneamente: família, grupo de amigos, trabalho, sociedade em geral, etc.

Lewin descreve o comportamento humano em termos da célebre equação C = f (P,A) em que C é o comportamento do sujeito, resultando este, sendo este função (f) da personalidade (P) do sujeito e do seu ambiente (A). Contraste-se esta visão do ser humano, mais complexa, com a do Behaviorista Watson, que apenas via no ambiente a raiz do comportamento: o comportamento do indivíduo passa a ser função da interacção entre o meio e a sua personalidade. O ambiente já não é em si, mas para o sujeito.

Todo o corpo tem um campo de forças à sua volta, que é interferido pelos campos dos outros corpos e, por sua vez, intefere nestes

Tal como os corpos celestes ou ímans, os corpos (e as pessoas) têm campos de força ao seu redor, que sofrem intereferências dos outros corpos e vice-versa

A questão da motivação surge no seguimento deste paradigma: o indivíduo é ele próprio constituído por vários campos. Lewin apercebeu-se que quando uma pessoa se propõe a uma tarefa, passa a sentir uma quase-necessidade (motivação) de a ver cumprida. Segundo ele, isto ocorre porque os objectivos assumidos pelas pessoas tornam-se, dentro delas, uma força de tensão, que gera um campo (aquilo que Freud chamaria uma pulsão). Enquanto ele não for «descarregado», esse campo agirá sobre a pessoa.

Estas ideias de contexto e sistema, como devem estar bem a ver, contribuíram grandemente para a visão que a Comunicação Empresarial tem das entidades colectivas. Recordem-se que as definimos como sendo organismos, sistemas em si mesmos, integrados em sistemas maiores, manifestando uma vontade sobre si mesmos e sobre o contexto em que existem, habitats com que interagem. Mas também, e como dissemos, sobre a compreensão do que motiva as pessoas e, portanto, como as liderar e gerir.

Apesar de ter perdido relevância enquanto campo de estudo, a Gestalt é vista, ainda hoje, como referência, dado o paradigma que apresentou que, como vemos, continua totalmente relevante. 

E a si, leitor: abriu-lhe perspectivas? Deixe-me a sua opinião. E aguarde pelo próximo artigo, sobre Elton Mayo, dentro de 15 dias, onde iremos um pouco mais a fundo sobre a motivação humana. Para os que subscrevem o blogue, haverá mais conteúdo já para a semana.

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