Será a sua escolha sua?

Sobre Skinner e o Behaviorismo Radical

A corrente do Behaviorismo – que abordamos na sua génese no último artigo – estava, entretanto, para ter em Burrhus Frederic Skinner um expoente tão grande que chegaria a suplantar até a relevância do seu criador, John Watson. Skinner chegou a ser considerado, num inquérito a 1725 membros da Associação Americana de Psicologia, o psicólogo mais influente do século XX.

Burrhus Frederic Skinner, criador do Behaviorismo Radical

Burrhus Frederic Skinner (1904 – 1990)

Skinner teve uma infância que o próprio descreveu como “acolhedora e estável”, durante a qual ele demonstrou uma larga criatividade e capacidade inventiva, entretendo-se a criar pequenas engenhocas. Em adulto, começou por ser escritor, mas desistiu dessa carreira, quando encontrou os trabalhos de Pavlov e do já referido pai do Behaviorismo, que tiveram um profundo impacto na sua visão do mundo.

É nessa altura que decide envergar pela carreira de psicólogo, entrando no curso, em Harvard (universidade de que já aqui falamos antes, quando falamos, por exemplo, de Mary Parker Follett ou Rensis Likert ou até mais recentemente, quando falamos do livro de James McGrath e Bob Bates, “O Pequeno Livro das grandes teorias de Gestão… e de como usá-las”). Lá, por volta de 1930-1931, já como investigador na mesma universidade, a sua tendência para a criação de aparelhómetros manifesta-se em vária criações que o tornam célebre, nomeadamente:

A caixa de Skinner

A famosa caixa de Skinner

  • a Caixa de Skinner – uma área isolada, um quarto, onde o sujeito – normalmente, um animal – accionava uma chave (um botão ou uma barra) que accionava um mecanismo através do qual lhe era servido algum tipo de reforço – água, comida ou algo do género
  • o Registador Cumulativo – um aparelho que registava a taxa respostas como linhas inclinadas e que estava ligado à Caixa.

Estes dispositivos permitiam aos psicólogos – nomeadamente aos psicólogos Behavioristas – perceber relações entre estímulos e respostas, observar comportamentos de forma isolada, etc – ou seja, aplicar um método de observação científica promissor.

Gráfico do Registador Cumulativo de Skinner

Gráfico do Registador Cumulativo de Skinner

Servido-se deles, Skinner percebeu que taxas altas de resposta seguiam-se às recompensas enquanto na ausência destas, as taxas de resposta eram muito mais baixas. Daqui e ao contrário de Watson e Pavlov, que diziam que a resposta dependia do estímulo precedente, Skinner defendeu que o comportamento fica dependente do que acontece depois da resposta. A este mecanismo de acção – e em oposição aos comportamentos automáticos ou reflexos – ele chamou comportamento operante.

Para distinguir o condicionamento de Skinner do condicionamento de Pavlov – chamado “clássico” – chamou-se a este “condicionamento operante“. Além de um se focar no “antes” do comportamento e o outro, no “depois”, o condicionamento clássico focava-se nas respostas reflexas, automáticas, enquanto o condicionamento operante preocupava-se com os comportamentos voluntários ou não-automáticos.

Distinção importante: no condicionamento clássico o sujeito é inerentemente passivo, enquanto no condicionamento operante, o sujeito aprende a repetir ou a eliminar os comportamentos tendo em vista os benefícios.

Isto traz-nos outra distinção importante: no condicionamento clássico o sujeito é inerentemente passivo, enquanto no condicionamento operante, o sujeito aprende a repetir ou a eliminar os comportamentos tendo em vista os benefícios.

Inerente ao conceito de comportamento operante, existe o conceito de reforço, ou seja, um evento que substancia o comportamento que lhe precede. Os reforços podem ser negativos ou positivos, consoante implicam a ausência de algo negativo ou a presença de um evento positivo. Como se pode esperar, ambos promovem o comportamento operante.

Excessos da teoria Behaviorista - o controlo da individualidade pelo bem comum?

Em alternativa, existe o castigo, que também ele pode ser positivo ou negativo, consoante implique a presença de um evento negativo ou a ausência de um evento positivo, respectivamente. Em ambos os casos, o castigo enfraquece o comportamento operante. No entanto, segundo Skinner, o reforço é sempre melhor que o castigo.

Nesse sentido, uma outra distinção pode ainda ser estabelecida entre o condicionamento clássico e o condicionamento operante: o primeiro utilizava estímulos «neutros», enquanto o segundo utilizava estímulos polarizados (castigo e recompensa).

A Máquina-que-ensina de Skinner

A Máquina-que-ensina de Skinner

Na continuação do desenvolvimento da sua investigação, em 1953, servindo-se do seu particular pendor para a criação de dispositivos, Skinner cria a Máquina-que-ensina, para ajudar a filha com os seus problemas de matemática.

Na altura, os alunos não recebiam feedback imediato do seu desempenho em relação a estas matérias: enquanto uns não conseguiam terminar o que lhes era pedido, outros acabavam mais rápido, mas não aprendiam nada de novo com isso. Skinner, utilizando o que sabia sobre a maneira de moldar comportamentos, extrapolou o sistema para o processo de aprendizagem e assim, criou uma máquina que dava feedback automático aos alunos, consoante eles iam respondendo aos problemas que ela lhes ia colocando.

Numa primeira fase, a maquineta não ensinava nada de novo aos alunos, mas Skinner projectou-a para tal, posteriormente, através de um sistema a que chamou instrução programada.

A importância da recompensa para reforçar o comportamento desejado

Esta experiência, entretanto, levou Skinner a desenvolver outro importante elemento de toda a sua teoria, isto é, as implicações que a regularidade do reforço tinham sobre o condicionamento do comportamento. Ele distingiu dos tipos de regularidades de reforço:

  • reforço contínuo – em que o reforço é atribuído todas as vezes que o comportamento é efectuado
  • reforço parcial – em que o reforço ocorre apenas em alguns dos momentos do condicionamento

Skinner percebeu que, enquanto a primeira é importante para as primeiras fases do condicionamento, a segunda será preferível posteriormente, pois apesar de devolver aprendizagens mais lentas, tende a criar aprendizagens mais estáveis e mais resistentes à extinção do comportamento desejado.

Dentro deste segundo tipo de regularidade, Skinner ainda distinguiu quatro sub-tipos de reforço parcial:

  • reforço parcial de relação fixa – o reforço é só atribuído após um certo número de respostas ser atingido; tem uma taxa de respostas altas em retorno (ex: o rato só recebe a recompensa depois de accionar o mecanismo ao fim de 3 vezes);
  • reforço parcial de relação variável – o reforço é atribuído após um número irregular de respostas; tem uma taxa de retorno de respostas alta, também (ex: os jogos de azar);
  • reforço parcial de intervalos regulares – o reforço é atribuído ao fim de um determinado intervalo de tempo regular; tem uma taxa de retorno alta próximo do fim do intervalo, mas baixa durante o restante (ex: o rato só recebe a recompensa ao fim de dez segundos após ter accionado o mecanismo pela primeira vez);
  • reforço parcial de intervalos variáveis – o reforço é atribuído ao fim de um intervalo irregular de tempo; produz uma taxa regular de respostas, mas baixa (ex: o rato recebe a recompensa ao fim de dez segundos, depois cinco, depois treze, etc)

Na continuidade destes e de outros achados, Skinner acabou por chegar à conclusão que o livre arbítrio era pura ilusão e que o comportamento humano poderia ser explicado por interacções com o meio ambiente a que estariam subjacentes mecanismos de aprendizagem como os que encontrava nas suas pesquisas.

Será o livre arbítrio pura ilusão e as nossas escolhas não mais do que o resultado de uma longa equação?

Será o livre arbítrio pura ilusão e as nossas escolhas não mais do que o resultado de uma longa equação?

Ele foi tão longe quanto negar ao ser humano a suposta dignidade que a razão e a escolha lhe confeririam, por reduzir estas a puros condicionamentos sobrepostos, o que o tornou alvo de duras críticas. A sua posição extremada do papel que o meio tem sobre o desenvolvimento das personalidades levou-o a chamar à sua teoria, como distinção do Behaviorismo Clássico, e bastante a propósito, Behaviorismo Radical.

Como é óbvio, esta posição fria sobre a humaniade gerou intenso debate e reacções. E é sobre a escola que surgiu como resposta ao Behaviorismo (e à outra corrente mais popular da altura, a Psicanálise), que iremos justamente falar no próximo artigo.

Leitor: até que ponto as suas escolhas são suas?

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