O sino de Edwin Twitmyer

Sobre Ivan Pavlov, John Watson e o Behaviorismo

John Watson, o pai do Behaviorismo

John Watson, o pai do Behaviorismo (1878-1958)

Em 1930, o psicólogo John Watson – em plena Teoria da Liderança por Perfil – publica um trabalho chamado “Behaviorism” (behaviorismo, comportamentalismo), que cai que nem uma «pedrada no charco». Nesse livro poderá ler-se a seguinte declaração:

“Dêem-me uma dúzia de jovens saudáveis, bem formados, e um ambiente por mim controlado onde eles possam ser criados e eu garanto que pegando em qualquer um deles à sorte, conseguirei treiná-lo para ser o tipo de especialista que eu deseje – doutor, advogado, artista, comerciante e até mesmo, sim, pedinte e ladrão, independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, habilidades, vocações ou raça dos seus ancestrais.”

Para uma Psicologia que ainda tinha avançado muito pouco para lá das inúmeras especulações e lutas conceptuais, esta afirmação era, no mínimo, ousada. Mas era a pedra basilar de uma nova corrente, o Behavio(u)rismo – nome que deriva, obviamente, de “behaviour”, comportamento. Esta escola irá ganhando uma preponderância cada vez maior no mundo da Psicologia, atingindo o pico da sua influência nos anos 50 do Século XX.

John Watson a realizar uma experiência com um bebé

Watson conduziu uma série de experiências, entre elas, algumas com bebés, que pretendiam demonstrar teses como a ideia que o medo e a aversão a alguma coisa é aprendido e não inato.

Os mais atentos verificarão que é esta a altura, justamente, em que surgem as Teorias Comportamentais da Liderança, como a Grelha de Liderança, de Blake & Mouton. Não é qualquer coincidência, como os próprios nomes da duas teorias denunciam: efectivamente, a teoria de liderança pelo comportamento deriva da própria mudança de paradigma na psicologia.

Enquanto os estruturalistas de Wundt procuravam perceber a reacção ou resposta que cada estímulo provocava no indivíduo, como se o comportamento humano, enquanto reacção pudesse ser representado pela função R = f (E) (resposta R é função f, isto é, altera-se consoante o estímulo E) – e portanto, a um dado estímulo, só se poderia esperar uma determinada resposta universal – Watson defende que a resposta ou comportamento seria o resultado complexo da situação ou ambiente em que o sujeito se encontrasse.

Watson e o Pequeno Albert

Uma das experiências mais controversas da historia da psicologia e um exemplo de condicionamento clássico, o Pequeno Albert (na figura) foi condicionado a passar de uma resposta neutra a animais de pêlo branco a uma aversão a esses animais, por associação com um estímulo desagradável (o som de um objecto metálico a ser batido nas suas costas, perto da cabeça) à presença desses animais

Essa relação seria assim então traduzida pela expressão R = f (S), em que “R” é a resposta e “S” é a situação. A ideia que seria possível, dadas as condicionantes ambientais correctas, gerar um comportamento ou suprimir outro, era naturalmente fascinante e tentadora, como está bom de ver e vinha em linha com as aspirações mais positivistas da ciência, como a salvação da Humanidade, da barbárie humana até então vivida, pelos séculos dos séculos.

Contudo, a mudança imposta pelo Behaviorismo era apenas a continuação de uma série de desenvolvimentos anteriores: podemos encontrar as raízes da corrente de Watson já em 1900, quando o famoso Ivan Pavlov começa as suas experiências dos reflexos condicionados, com os prosaicos caninos que o celebrizaram. Destaque-se, curiosamente, que Pavlov não era psicólogo, mas fisiologista – na realidade, e ironicamente, Pavlov não aprovava o campo da Psicologia, sequer.

Ivan Pavlov

Ivan Pavlov (1849-1936)

Diga-se de passagem que a resistência de Pavlov à Psicologia não era caso único: Freud, que começara por estudar Medicina, teve um período da sua vida em que era tão ostracizado pelos colegas dessa área, que tinha apenas um confidente, o médico Wilhelm Fliess.

O fisiologista Pavlov, porém, teria mais importância para este ramo do saber o que o que alguma vez ele esperaria: na tentativa de estudar o processo de secreções gástricas em cães, ele apercebeu-se que os animais segregavam fluídos típicos da alimentação, mesmo não estando a ser alimentados, quando viam o tratador que normalmente lhes servia as rações.

Pavlov esquematizou o processo do seguinte modo:

Esquema que explica o condicionamento clássico de Ivan Pavlov

A um determinado estímulo natural, não-condicionado (exemplo, comida), seguia-se uma resposta não-condicionada (salivar, por exemplo). Porém, seria possível associar gradualmente um novo estímulo de modo premeditado, condicionado, ao estímulo não-condicionado, de tal modo que este substituir-se-ia àquele, provocando a mesma resposta, o mesmo reflexo do organismo, mesmo na ausência do agente que antes provocava esse mesmo reflexo. Esse novo reflexo, obtido a partir de um estímulo condicionado (que originalmente, foi, como se sabe, um sino que era tocado sempre que a comida era servida aos sujeitos) passava a ser um reflexo condicionado do sujeito.

Pavlov e as suas famosas experiências com cães

Estudos posteriores fizeram Pavlov perceber que o reflexo condicionado tendia a cair ao fim de algum tempo e que, portanto, necessitava de reforço regular. Ele também acabou por perceber que a saliva não-condicionada e a saliva condicionada eram diferentes em termos de composição, porém, foi possível extrapolar daqui que o comportamento poderia ser alterado, mediante as condicionantes correctas.

Experiência do sino de Edwin Twitmyer

A tão ignorada experiência capital de Edwin Twitmyer com o sino

A Ciência tem destas coisas: é nesta ideia que Watson se irá basear, para a criação do Behaviorismo. A ironia à volta do caso de Pavlov torna-se maior ainda, quando se descobre que um ano antes dele, justamente um psicólogo, Edwin Twitmyer, publicara um estudo que abordava precisamente a questão dos reflexos condicionados em humanos, servindo-se exactamente do mesmo estímulo condicionado: o sino.

Todas estas experiências (e mais falaremos sobre isso no próximo artigo) têm o condão de nos deixar inquietos, com uma dúvida na nossa mente… Leitor: até que ponto é dono do seu comportamento e até que ponto o que acha ser a sua liberdade de escolha pessoal poderá ser resultado de um condicionamento? Não perca o próximo artigo, em que continuaremos a falar do Behaviorismo.

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