O Homem Excepcional

A Teoria do Homem Excepcional, de Thomas Carlyle e a Teoria da Gestão Científica, de Frederick Winslow Taylor

 

A Economia, do ponto de vista moderno, é, como dissemos, fruto do paradigma inicialmente proposto por Adam Smith. Como se sabe, muito se tem acrescentado ao que ele enunciou n’ “A riqueza das nações” (1776), mas o essencial da obra continua perfeitamente válido e aplicável aos nossos dias.

Adam Smith, o pai da Economia Moderna

Adam Smith, o pai da Economia Moderna

Já a Gestão, assente na prática económica, enquanto actividade intelectual organizada, inaugura-se, segundo a maioria dos autores, com a publicação, em 1911, da obra de Frederick Winslow Taylor, “Os Princípios da Gestão Científica” [outra obra mais mencionada do que lida e sobre a qual mais tarde ou mais cedo haverá uma recensão crítica aqui – subscreva a newsletter, para ser notificado].

Frederick Winslow Taylor, o pai da teoria científica da Gestão

Frederick Winslow Taylor (1856 – 1915)

Com a revolução industrial do século XIX e a invenção da máquina a vapor, vemos toda a actividade empresarial exponenciada. A escala cresce a um nível nunca antes visto desde a Antiguidade: a magnitude, a diversidade e o ritmo das operações exigem um novo conhecimento sobre a arte de gerir e, consequentemente, de liderar – e a obra de F. W. Taylor vem dar resposta a essa necessidade.

No contexto intelectual dominante da época, quem estava no topo, nele permanecia por natural competência. E quem não estava, devia-o à sua própria natureza. No fundo, a orientação laboral de cada um derivaria da sua inclinação pessoal, um pouco como um sistema de castas.

Esta maneira de ver as relações laborais em muito se relacionava com a teoria de Liderança do “Homem Excepcional”, originalmente proposta pelo professor e escritor Thomas Carlyle, no seu livro “Dos heróis, do culto do herói e dos heróis na História” (1841). [o link aponta para uma cópia digital gratuita do livro, em Inglês]

Thomas Carlyle, autor de “Dos heróis, do culto do herói e dos heróis na História”

Thomas Carlyle (1795 – 1881)

Como o nome da teoria indica, apesar de não ser possível determinar concretamente o que isso do “homem excepcional” é, o Homem Excepcional seria alguém dotado de determinada personalidade impulsionada para o poder. Sob as circunstâncias correctas, ele tomaria a dianteira e levaria o grupo ao sucesso – um prenúncio do conceito do líder transformacional, mas ainda muito imberbe.

Os líderes não seriam feitos: nascer-se-ia líder ou não, o que encerra tudo numa lógica demasiado rígida para aplicar ao quotidiano empresarial, já no século XIX. As observações de Thomas Carlyle debruçaram-se na análise das biografias de grandes nomes, míticos ou históricos (Odin, Moamé, Dante, Shakespeare, Napoleão, etc) mas ignoravam o líder do dia-a-dia e eram de pouca utilidade para a nova realidade do mercado.

William Shakespeare

William Shakespeare

Taylor vem temperar a questão, salientando o facto de que existem formas mais ou menos eficientes de fazer o mesmo trabalho e que é necessário testar, experimentar e observar para se chegar ao estado óptimo. Nesse sentido, os próprios gestores necessitariam de formação, o que quebrava com o paradigma do Homem Excepcional, já predisposto a ser líder.

Os gestores da época acreditavam que a liderança era algo inato a determinadas pessoas e, portanto, os métodos seriam os que a liderança determinasse, não havendo nada de propriamente interessante para ser analisado, já que a liderança não poderia ser aprendida.

Testar: experimentar e observar

Por isso mesmo, todo o trabalho de Taylor foi altamente questionado pelos seus colegas, que estranhavam o homem que andava de cronómetro e caderno na mão, a medir tempos dos trabalhadores: na busca da derradeira eficiência, Taylor chegou ao limite de coreografar os movimentos e as pausas dos operários por tarefas, para evitar simultaneamente o desperdício de tempo e de força e o desgaste excessivo da mão-de-obra.

Fordismo & Taylorismo

A teoria de Taylor inspirou o chamado fordismo

Taylor era um engenheiro e isso nota-se no seu método. O seu objectivo era fazer com que o Trabalho deixasse de lado os amadorismos que o tinham guiado até aí – santificados pela suposta predisposição dos chefes serem chefes porque… eram chefes – e passasse a obedecer ao princípio da optimização, procurando aplicar a ciência a toda a actividade da organização, fosse na selecção e treino dos funcionários, na definição das tarefas ou até nos restantes aspectos administrativos da hierarquia.

Henry Ford: inspirado na teoria de Taylor, Ford criou um conceito empresarial completamente novo

Henry Ford

A trave-mestra da filosofia de trabalho tayloriana é o princípio da eficiência máxima dos recursos, nos quais se incluem os recursos humanos. Entusiasmados por esta visão pragmática da realidade empresarial é fácil ignorarmos o desejo humanista do autor – que poucos referem, justamente por não terem lido a obra, mas conhecerem-na pelas suas consequências.

O que se torna uma apreciação injusta do papel de Taylor. Se fossemos a avaliar Einstein pela bomba atómica, provavelmente ele seria tão odiado como Hitler. Um certo número de pessoas parece retirar prazer de encontrar brechas na proposta mais altruísta, para a subverter contra si própria e os seus objectivos, passando a legitimar práticas tão más como as anteriores, quando não piores. Por isso, é preciso ir para além do óbvio.

Industrialização, um deus que exige o sacrifício humano

O monstro da industrialização, uma máquina insana, como um deus sanguinário, a quem é necessário sacrificar almas humanas [do filme “Metropolis”, de Fritz Lang]

Esta visão quase medieval do que era o trabalhador e o seu patrão e a relação entre ambos, é mais fácil de entender se olharmos à época: efectivamente, a mão-de-obra fabril da altura tratava-se, na maioria, de um contingente não-qualificado, originário do êxodo rural para as cidades; em busca de melhores condições de vida, muitas vezes sofrendo de alcoolismo – resultante, por seu lado, do seu desenraizamento – e de outras doenças epidémicas, deprimida e sem qualquer protecção sindical, estas pessoas tinham pouca escolha.

Trabalhadores não qualificados do início do século

Trabalhadores não qualificados do início do século

Nesta distopia, os patrões e os gestores eram semideuses, defendidos em tudo pelas lacunas da lei laboral e os funcionários – não surpreendentemente – tendiam a não ser fieis – o que se tornava um problema grave para a Gestão, que procurava constantemente mão-de-obra para cumprir encomendas.

Daí Taylor ter sempre defendido que os funcionários deveriam estar bem, para que o seu desempenho fosse o melhor, propondo o fim do trabalho de jornaleiro – já que, dada a insegurança, o funcionário era pago ao dia.

Greve do Sitdown da General Motors

Greve do Sitdown da General Motors

Esta ideologia permitiria aumentar a produtividade, mas reduzir o horário de trabalho que o empregado necessitava para conseguir um salário mínimo desejável – já que o trabalho era pago miseravelmente e obrigava as pessoas a trabalhar mais horas do que o que seria razoável – e assim, ter maior qualidade de vida – tendo, por exemplo, mais tempo para si e para a sua família.

Em contrapartida, propunha apostar nos bons funcionários e tentar retê-los na organização, desenvolvendo-os e permitindo-lhes ensinar os seus métodos vencedores a outros. Se já hoje se pensa nisto como sendo de difícil implantação, imagine-se na época. Mas repare-se o quanto ele era bem mais progressista do que o que se pretende fazê-lo.

Saída de fábrica de trabalhadores dos anos 30

Saída de fábrica de trabalhadores dos anos 30

Bem pelo contrário, os empregados do tempo de Taylor viviam em condições higiénicas deploráveis, senão imorais. O termo “proletariado” vem justamente de “prole”, dada a promiscuidade com que as pessoas se relacionavam, vivendo famílias inteiras em dormitórios, sem qualquer privacidade.

O trabalho infantil proliferava como uma peste, assim como a falta de condições de segurança e os salários baixos que já referimos. É, pois, fácil entender, como é que a obra de Taylor foi inicialmente aplaudida pelos esquerdistas, que hoje a criticam como exemplo do despotismo patronal.

Trabalho infantil na época da Revolução Industrial

A obra de Taylor continha textualmente o objectivo de dar melhores condições aos trabalhadores das organizações da época. Contudo, contrariamente a este propósito, o Taylorismo, nas mãos de gestores mal intencionados ou não capacitados, tornou-se o exemplo acabado dos males da industrialização: a repetitividade do trabalho, a desumanização dos trabalhadores transformados em peças de máquinas, a exploração laboral, etc. O que mostra que não basta criar uma boa teoria: é preciso que ela seja vivida pelas chefias.

Trabalhadores em condições desumanas

Aponta-se que o pensamento de Taylor ainda assentava numa visão redutora do Homem: se se queria fazer alguém trabalhar mais, bastava pagar-lhe o suficiente. A ideia subjacente, no entanto, é a da motivação do próprio trabalhador, ainda que expressa de modo demasiado pueril.

Mais uma vez, aquilo em que se traduziu na prática foi na interpretação do homem como um ser motivado única e exclusivamente pelo soldo e unicamente capaz de executar. Quando o pagamento do trabalho é baixo, é natural que variações desse valor façam variar o desempenho, mas isso apenas até um determinado limiar.

Trabalho infantil na era do inicio da industrialização

A preocupação de Taylor de imputar responsabilidade ao gestor é revolucionária em si, já que os patrões e gestores da época não reconheciam que o seu próprio trabalho, o seu estilo, etc, tinham impacto directo sobre a produtividade da equipa: o que quer que decidissem estava bem; quando estava mal, a culpa era do funcionário.

A Teoria da Gestão Científica, pelo contrário, vem colocar a responsabilidade do sucesso sobre os gestores. Para Taylor, o papel do Gestor era semelhante ao de um chefe de família tradicional: deveria organizar e orientar o trabalho, e promover o bem-estar dos seus funcionários. O lado perverso da mesma ideia é que infantilizou totalmente o trabalhador, tornando-o dependente numa relação desigual.

Smokestacks Polluting Pittsburgh

Ironicamente, com a industrialização que o justificava inicialmente, veio a sucessiva implementação tecnológica, que tem vindo gradualmente a fazer o trabalho humano propriamente dito – o serviço personalizado, a criatividade, o controlo do imprevisto, etc – os redutos de actividade laboral que justificavam a adopção de uma nova perspectiva de gestão, mais humanizada.

No todo, porém, Frederick Winslow Taylor foi um visionário, um… Homem Excepcional. E o leitor? Concorda com a ideia de Taylor? 

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2 thoughts on “O Homem Excepcional

    • Obrigado. Tento evitar artigos demasiado longos, mas há matérias que, em nome do rigor, não podemos simplesmente tratar levemente ou pela metade. É um esforço mútuo, de ler e de escrever, mas penso que todos ganhamos, no fim e, portanto, vale a pena.

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