Aos ombros de gigantes

Marcos da história que contribuíram para o desenvolvimento das Ciências Organizacionais, nomeadamente da Gestão

Pelo que temos dito, o estudo da Liderança segue o estudo da Gestão das Organizações, o que significa que a evolução desta está dependente do progresso daquela. A história da Gestão, enquanto actividade humana, será tão antiga como a própria civilização, na qual se confunde a história das actividades económicas. Como tinha prometido, vamos tentar situar o estudo da Liderança, começando por fazer uma síntese da tradição nesta área.

Pirâmides do Egipto: mais do que o fascínio pelo místico, o resultado do domínio da Gestão

A nossa história, como muitas que fascinam, começa no antigo Egipto. Pense, caro leitor, no esforço gigantesco que terá sido a construção das pirâmides; pense em todas as pessoas, matérias-primas e meios que foi preciso gerir para chegar àquele efeito inspirador que leva hoje tanta gente a viajar até lá, só para tirar uma fotografia com aquelas construções – que subsistem – no fundo; pense no esforço económico e logístico envolvido, para manter toda a estrutura a funcionar, muito em particular em relação à alimentação e alojamento dos trabalhadores.

É por tudo isto, que hoje, quando esse esforço seria ainda impressionante, que continuamos a admirar aquelas enigmáticas construções: não é apenas pelo que elas encerram em termos de intenção, que as dizemos “enigmáticas”, mas por revelarem uma capacidade (material, sem dúvida, mas principalmente intelectual) inesperada. Especialmente num povo em cuja proto-história pouco se adivinharia de tal magnitude. Isto, recorde-se, há cerca de 5000 anos atrás.

Código de Hamurabi: o primeiro registo de lei escrita complexa

Código de Hamurabi

Mais recentemente, o Código de Hamurabi da Mesopotâmia (nos idos de 1700 A. C.), que é considerado como o primeiro exemplo de um código complexo de leis, já referia a importância do contrato escrito e do testemunho, bem como o princípio da intransmissibilidade da responsabilidade pessoal, como bases para o estabelecimento de relações negociais de confiança mútua – em que, mais à frente, se incluirão as relações laborais internas, como hoje sabemos, essenciais à existência de uma entidade colectiva.

Sun Tzu, autor de "A Arte da Guerra", clássico da Gestão estratégica

Sun Tzu (544 A. C. – 496 A. C.)

Mas não é só ao Direito que a Gestão moderna vai buscar as raízes da sua história: a arte militar é outra das suas fontes inspiradoras. Nesse aspecto, Sun Tzu e T’ai Kung disputam, a partir da China, o título de primeiro teórico da estratégia.

Não porque fossem simples teóricos: estas pessoas eram membros efectivos de cortes, onde exerciam funções práticas de estrategas – mas porque deixaram registos escritos do seu saber sobre o tema. Muito do que o Ocidente só viria a descobrir séculos depois, era já enunciado por eles, no Oriente, nesta altura.

A grande discussão prende-se com saber qual viveu primeiro e portanto, quem é que se inspirou em quem. Sun Tzu e a sua “Arte da Guerra” são clássicos da literatura da Gestão. Já T’ai Kung e os seus “Seis Ensinamentos Secretos” são muito menos conhecidos, mas confesso que bastante mais interessantes e pragmáticos. [Nota: como prometi publiquei uma recensão crítica sobre este livro, que achei particularmente curioso – subscreva a newsletter, para receber estas e outras informações primeiro]

Platão, autor da "República"

Platão

Um pouco mais a Mediterrâneo e ligeiramente mais actual, na Grécia antiga, Platão sublinha a importância fulcral do papel do administrador que lidera, o valor inerente ao seu saber e a complexidade intrínseca às suas decisões – bem como risco da sua posição – a partir da metáfora do capitão do navio, na sua “República”, no século IV A. C:

“Imagina, pois, que acontece uma coisa deste género, ou em vários navios ou num só: o capitão, superior em tamanho e em força a todos os que se encontram na embarcação, mas um tanto surdo e com a vista a condizer, e conhecimentos náuticos da mesma extensão; os marinheiros em luta uns contra os outros, por causa do leme, entendendo cada um deles que deve ser o piloto, sem ter jamais aprendido a arte de navegar nem poder indicar o nome do mestre nem a data do seu aprendizado, e ainda por cima asseverando que não é arte que se aprenda, e estando prontos a reduzir a bocados quem declarar sequer que se pode aprender; estão sempre a assediar o capitão, a pedir-lhe o leme e a fazer tudo para que este lhes seja entregue; algumas vezes, se não são eles que o convencem, mas sim outros, matam-nos, a esses, ou atiram-nos pela borda fora; reduzem à impotência o honesto capitão com drogas, a embriaguez ou qualquer outro meio; tomam conta do navio, apoderam-se da sua carga, bebem e regalam-se a comer, navegando como é natural que o faça gente dessa espécie; ainda por cima, elogiam e chamam marinheiros, pilotos e peritos na arte de navegar a quem tiver a habilidade de os ajudar a obter o comando, persuadindo ou forçando o capitão; a quem assim não fizer, apodam-no de inútil, e nem sequer percebem que o verdadeiro piloto precisa de se preocupar com o ano, as estações, o céu, os astros, os ventos e tudo o que diz respeito à sua arte, se quer de facto ser comandante do navio, a fim de o governar, quer alguns o queiram quer não — pois julgam que não é possível aprender essa arte e estudo, e ao mesmo tempo a de comandar uma nau. Quando se originam tais acontecimentos nos navios, não te parece que o verdadeiro piloto será apodado de palrador, lunático e inútil pelos navegantes de embarcações assim aparelhadas?” Platão, “República

Ainda dentro da realidade militar, os Romanos, cujo império – até hoje inigualado em termos de extensão – dependia completamente da eficiência e eficácia dos seus exércitos, que tinham uma dimensão incomensurável, com proveniências culturais distintas e, como dissemos, se dispersavam por vastíssimas regiões.

Ilustração de Centurião Romano

Centurião Romano

O exército Romano era constituído por várias Legiões, cada uma delas incluindo entre 3000 a 6000 legionários e subdividindo-se em Centúrias, de 80 (e não 100) legionários, comandados por um centurião. Facilmente se percebe a dimensão do problema.

A eficiência de tal máquina exigia redes de comunicação altamente eficazes, sistemas de protecção de dados, logística, diplomacia, etc – curiosamente, muitas das preocupações das organizações actuais e muito em especial, da própria Comunicação Empresarial.

Mas, entre todos estes aspectos, com relevância especial para o tema da Liderança, sublinhamos que é neste contexto que surgem, de um modo inequívoco, alguns princípios que, já sendo conhecidos antes, ganham destaque nesse momento: por um lado, o princípio hierárquico (com cada pessoa a ter o seu cargo, a sua posição numa estrutura, com funções, direitos e deveres correspondentes) e, como não podia deixar de ser, associados a este, o princípio da delegação da autoridade e o princípio da unidade de comando (cada pessoa é subordinado directo de uma chefia única a quem responde inequivocamente).

Vaticano, centro nevrálgico de uma organização burocrática altamente eficiente, a Igreja Católica

O Vaticano atesta bem o poder da Igreja Católica, fruto, entre outras coisas, da sua eficiência organizacional

Nesse sentido, surpreendentemente, vamos encontrar óptimos exemplos de organização burocrática não só nos exércitos, mas também nas religiões. Muito em particular, na Igreja Católica, cuja especialização de cargos, distribuição geográfica e organização hierárquica escalar são exemplares de eficiência organizacional – note-se há quanto tempo essa estrutura humana subsiste.

Maquiavel, autor de "O Príncipe"

Maquiavel

Falar em estratégia e não falar de Maquiavel e do famigerado “Príncipe” seria uma falha grave. Renascentista, ele recupera, sem saber, muito do que T’ai Kung exprime em relação às estratégias de subversão de que aqueles que desejam chegar ao poder (ou assegurá-lo) podem servir-se para assim o fazer.

Adam Smith, autor de "A Riqueza das Nações"

Adam Smith

Finalmente, e até ao Século XX e como não poderia deixar de ser, destaca-se Adam Smith, ainda dentro da questão da especialização dos papéis, que no seu famosíssimo “A Riqueza das Nações”, dedica um capítulo inteiro à divisão do trabalho.

Carl von Clausewitz, autor de "Da Guerra: lições de táctica e estratégia e reflexões sobre a guerra e a paz”

Carl von Clausewitz

Neste século (XVIII), há ainda um outro nome que também é importante referir, como contribuidor para a teoria do conhecimento estratégico, também ele, como não poderia deixar de ser, associado quer ao campo militar, quer à política – o general Prussiano Carl von Clausewitz, autor de, entre outros escritos, de “Da Guerra: lições de táctica e estratégia e reflexões sobre a guerra e a paz”. A sua citação mais conhecida é, justamente, “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

E por agora, paramos aqui. Nos próximos artigos continuaremos a falar da Gestão e de como esta abordou a problemática da Liderança, agora já na nossa era.

Leitor: conhece mais alguns exemplos que pudessem ser incluídos neste fio lógico de Liderança, Gestão organizacional e Estratégia? Deixe-nos a sua opinião.

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