Viagem à nossa origem

A origem da economia, do comércio e das empresas

Como pudemos perceber, uma organização tem uma dimensão que transcende a sua natureza física. Ainda que tenhamos de partir desta natureza mais palpável, teremos, obviamente de transcender a mera catalogação de fenómenos. Até porque esses fenómenos mais observáveis são normalmente ecos de realidades mais profundas, relativas à própria «alma» da organização – a sua personalidade.

Os fenómenos mais observáveis são normalmente ecos de realidades mais profundas, relativas à própria «alma» da organização – a sua personalidade.

Hierónimos Bosch – Extracção da Pedra da Loucura – um quadro que tive a bela oportunidade de ver em pessoa, em Madrid, no Museu do Prado – que demonstra o quanto evoluímos no nosso conhecimento acerca da dimensão psicológica do ser humano.

Esta visão sobre a realidade organizacional, e muito em particular, sobre as empresas, é relativamente recente, no entanto. Como é óbvio, sendo do âmbito da psicologia das organizações, dos grupos, primeiro, teve de aparecer uma psicologia meramente individual – isto é, uma disciplina que reconhecesse uma dimensão psíquica, em termos científicos, a cada pessoa.

Só partir daí se tornou possível extrapolar para a resultante da interacção dos vários elementos, uma disciplina de psicologia de grupo, uma observação e análise da dimensão psíquica colectiva que surge do contacto entre os vários indivíduos do grupo e que é maior – ou, pelo menos, diferente – em relação à soma das suas partes – é uma sinergia.

Mas de onde vêm as empresas?

Na Idade Média, sob influência do pensamento aristotélico, a actividade comercial não era propriamente bem vista, sendo muitas vezes agrupada com a da usura ou empréstimo.

"Banqueiros", de Marinus van Reymerswaele

“Banqueiros”, de Marinus van Reymerswaele

Como sabemos, os Judeus, figuras associadas a estas actividades, viviam sob um regime opressivo, isolados em judiarias (espécie de gueto judaico), por estarem negativamente relacionados com a morte de Jesus Cristo segundo a visão Católica Medieval. Quando aceites, eram considerados «um mal necessário».

Os Templários, que conquistaram grande poder económico graças, entre outras actividades, ao seu sistema bancário, geraram invejas de muitos.

Cavaleiros Templários a jogar xadrez (1283)

De igual modo, os Templários, que conquistaram grande poder económico graças, entre outras actividades, ao seu sistema bancário, geraram invejas de muitos, como o rei Filipe IV de França, o Belo, que os levou à perseguição e extinção, em particular na fatídica Sexta-feira 13 de Outubro de 1307.

O rei Filipe IV de França, o Belo, que perseguiu e levou à extinção os Templários, em particular na fatídica Sexta-feira 13 de Outubro de 1307.

Filipe, o IV de França, o Belo

[Faça-se aqui o parêntesis que Portugal, em linha com a sua identidade, deu guarida aos seus Templários, salvando-lhes a vida e as posses em território Português através de um acto administrativo: mudou-se-lhes o nome para Ordem de Cristo e transferiram-se os bens de uma ordem para outra. Nenhum Templário de Portugal foi perseguido ou foi vítima das pressões do Papa Clemente V e do Rei de França]

Descobrimentos e burguesia

Por outro lado, Portugal e Espanha foram responsáveis, através dos Descobrimentos, pela emancipação da actividade mercantil, que, até aí, era meramente residual e tipicamente doméstica. O grande comércio internacional estava subordinado aos monopólios das rotas que existiam até aí.

Portugal descobriu novas rotas de transporte de bens, bem como novas fontes de produtos, além de novos produtos para serem comercializados, impulsionando todo um novo sector de actividade.

Mapa antigo, representando a Rota da Seda

Portugal descobriu novas rotas de transporte de bens, bem como novas fontes de produtos, além de novos produtos para serem comercializados, impulsionando todo um novo sector de actividade.

Burguês

Burguês

Esta nova classe, a burguesia – aquilo que hoje seria chamado de empreendedorismo – rapidamente começou a ameaçar o equilíbrio social que existia até aí, na sociedade medieval – constituída por clero e nobreza, que ascendiam a 1% da população, e que viviam dos rendimentos que o povo, o terceiro e restante segmento, extraía das  propriedades dos restantes, os poderosos.

Com estas novas fontes de rendimento, muita gente começou a ascender a um poder social e económico que levaria ao declínio dos dois grupos anteriormente dominantes – sem que isso levasse ao empoderamento do povo, no entanto.

A era industrial

Com a descoberta da máquina a vapor, surge a verdadeira ideia de industrialização e a actividade comercial expande-se como se tivesse recebido esteróides anabolizantes.

Com a descoberta da máquina a vapor, surge a verdadeira ideia de industrialização e a actividade comercial expande-se como se tivesse recebido esteróides anabolizantes.

Máquina a vapor

Surgem, novamente, novos produtos, a preços mais reduzidos, em quantidades exponenciais e com graus de perfeição que as antigas manufacturas não conseguiam replicar. A ciência fascina e vende, fazendo com que as pessoas comprem com avidez, pelo puro deslumbre da técnica.

A ciência fascina e vende, fazendo com que as pessoas comprem com avidez, pelo puro deslumbre da técnica.

Bicicleta para a família com máquina de costura incorporada. Clique na imagem para ver mais invenções estranhas da década de 30.

É também neste momento que surge a ideia da economia positivista que está, em grande parte, na base da crise que temos actualmente: a ideia que a economia, para se manter, terá de se expandir indefinidamente – o que não faz, de todo, sentido, tendo em conta que os recursos são, por definição, limitados e os consumidores, também.

A Revolução industrial faz surgir um paradigma de economia de escoamento puro: tudo o que é produzido só tem de ser disponibilizado ao público – alguém há-de comprar, eventualmente. Não há simplesmente oferta suficiente que satisfaça toda a procura: há que produzir e produzir mais.

Por isso, as empresas vêm-se hierarquicamente sob o modelo da pirâmide e, em termos de funcionamento, como uma linha de montagem, subordinada o fluxo de trabalho à especialização de actividade por sector: as organizações são um sistema, isto é, um conjunto de elementos diferentes, que trabalham em conjunto, realizando funções distintas, para um bem comum. Há que manter a máquina oleada.

As empresas desta época vêm-se hierarquicamente sob o modelo da pirâmide e, em termos de funcionamento, como uma linha de montagem, subordinado o fluxo de trabalho à especialização de actividade por sector

Exemplo de uma linha de produção

O meio externo é visto como sendo quase que um depósito da produção.

Desta feita, não existe qualquer preocupação com nada a não ser com a maximização do lucro puro: comprar barato, vender caro. A única excepção será a já tradicional preocupação com a rota – o canal de distribuição.

Desta feita, não existe qualquer preocupação com nada a não ser com a maximização do lucro puro: comprar barato, vender caro. A única excepção será a já tradicional preocupação com a rota - o canal de distribuição.

Camiões saem da fábrica, levando chocolates, cinco deles premiados com um bilhete dourado – de “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Tim Burton

Para quê falar em políticas de recursos humanos? Para quê falar em marketing? As pessoas trabalham por dinheiro (teoria do Homo Economicus) e o que querem é ter muito dinheiro para comprar muitos produtos e  vice-versa: ter o maior número de produtos que o seu dinheiro consegue comprar. Curiosamente, muitos empresários Portugueses ainda estão no século XIX, pelo que percebemos.

Grandes esperanças, maiores desilusões

Como se poderia adivinhar, esta situação – mau-grado o que muitos economistas parecem ainda hoje defender – não poderia manter-se assim eternamente: se isto é assim (basta produzir, que alguém há-de comprar), é natural que cada vez mais gente entre no jogo.

Se mais gente entra no jogo, aumenta a competitividade - alguém vai ficar de fora

Quando o momento chega, alguém fica de fora

Logo, aumenta a competitividade: isto é, face a n concorrentes com n produtos, os mesmos consumidores com os seus recursos limitados começam a ter de fazer escolhas. Ou seja, alguém acaba de fora.

Isso leva a que as empresas comecem a perceber que têm de se preocupar com o meio que as circunda – é necessário criar algum tipo de distinção. É aqui que começam a surgir as práticas generalizadas de publicidade, marketing, design etc.

Estamos agora numa lógica de mercado: a equação que antes era meramente desenhada em termos de custos versus produção-escoamento, começa a ter de incorporar a concorrência como um factor que definitivamente molda o seu desempenho.

As lutas Comunitas foram uma reacção aos maus tratos do patronato

“Esteja em guarda contra os inimigos” – poster de propaganda Soviética

Igualmente, com a revolução comunista, os próprios governos começam a promulgar legislação laboral, que impõem limites às pretensões dos capitalistas; e as teorias da psicologia grupal, como as que já referimos, de Elton Mayo, começam a preocupar-se com a influência que a dimensão humana interna tem sobre o desfecho dos esforços organizacionais.

Elton Mayo

Elton Mayo

Mais recentemente, a pressão exercida por grupos de opinião (lobbies) e até da própria sociedade em geral, fazem com que a empresa se torne auto-consciente do impacto recíproco que, por um lado, a envolvente contextual em que ela se insere a influencia, mas também, por outro, já num plano de auto-consciência, como é que ela influencia a envolvente contextual.

A ideia que a organização é um sistema permanece, mas com uma mudança tão subtil quanto fundamental: de um sistema fechado, passa a um sistema aberto, um sistema que realiza trocas com o meio (não mais despejos), quer em termos do que recebe deste, quer em termos do que a ele fornece.

Através de mecanismos químicos, a membrana de uma célula torna-se permeável à entrada e à saída de determinadas substâncias e completamente impermeável a outras, realizando assim, trocas com o meio - mecanismo que caracteriza a célula viva como um sistema aberto.

Através de mecanismos químicos, a membrana de uma célula torna-se permeável à entrada e à saída de determinadas substâncias e completamente impermeável a outras, realizando assim, trocas com o meio – mecanismo que caracteriza a célula viva como um sistema aberto.

Esta imagem vai beber muito à biologia, que começa a ver quer a célula, quer os grupos de animais de um determinado habitat como sistemas abertos. A empresa passa a ser vista de igual modo, como um organismo colectivo, simultaneamente subordinada ao seu meio e influente sobre o seu habitat, nas trocas que estes dois termos estabelecem entre si.

Em rigor, as empresas da fase anterior já sabiam que isto existia, mas o acto de se abrirem para «expelir» o que produziam ou para receber os fornecimentos do meio, era visto como um elemento secundário, uma mera contingência, sendo a sua atenção centrada na organização em si.

Os ecossistemas, como o nome indica, são sistemas de relações entre seres vivos

Os ecossistemas, como o nome indica, são sistemas de relações entre seres vivos

Nesta nova fase, a organização volta-se para fora, para o meio, pois percebe que está totalmente dependente dele, para poder sobreviver e continuar a existir. Mais além, tem impacto sobre a comunidade em que está implantada e da qual faz parte. A mudança da abordagem traduz toda uma nova postura perante a problemática empresarial.

A terceira vaga

A partir do momento que a organização passa a ver-se como um organismo vivo integrado num contexto, começa a tentar compreender o seu meio envolvente. O objectivo subjacente, claro está, passa por detectar tendências, para tentar prevê-las e antecipá-las, e, assim, tirar o melhor partido das situações.

Isto leva a uma nova mudança de paradigma: o organismo não está simplesmente vivo – ele tem propósitos (pensa). Mais importante ainda, ele não se limita a adaptar-se ao meio: como pensa, além de poder apenas agir sobre o meio, ele consegue prever o meio e antecipá-lo. Da lógica do escoamento, que passou para a de mercado, chegamos à lógica do organismo vivo inteligente – a lógica dos mercados actuais, aquela em que a Comunicação Empresarial se integra.

Como pensa, além de poder apenas agir sobre o meio, a organização, enquanto ser vivo, deve conseguir prever o meio e antecipá-lo

Observando o meio

O meio não é simplesmente um instrumento para a sobrevivência da empresa – é a razão de ser da mesma. Ainda que ela surja para cumprir o desejo de criação de riqueza, ela só faz sentido enquanto parte integrante da sociedade enquanto produtora de um facto de bem-estar para o seu meio.

Chegamos à razão de ser da empresa mais fundamental: uma organização pode ser um sistema aberto, gastar recursos e produzir algo. Se o meio em que ela está integrada não reconhece valor no que ela produz – e, mais ainda, no que ela é – a empresa não tem razão de («permane»)ser.

Assim, a organização deve promover o valor que acrescenta à vida de todos aqueles com quem interage proactivamente através de estratégias de Comunicação Empresarial, para além da actividade meramente propagandística (marketing, publicidade, etc). É, aliás, este carácter antecipativo e estratégico que cria a cisão com o modelo anterior: a organização não é um mero produto de forças – ela é uma entidade viva, pensante e proactiva que gera mudança, para além de meramente ser influenciada por ela.

Saber liderar esta criatura colectiva permitir-lhe-á chegar mais longe do que alguma vez qualquer um de vocês poderia, sozinho. Para isso, você terá de ser capaz de inspirar essa nova entidade.

Liderar é mostrar o caminho

Reconhecer a sua organização como um organismo colectivo, inteligente e estratega, permitir-lhe-á compreender todo o poder psíquico que está presente nessa mesma entidade sinérgica e em que medida ela é relevante para o mundo. Saber liderá-la permitir-lhe-á chegar mais longe do que alguma vez qualquer um de vocês poderia, sozinho. Para isso, terá de ser capaz de inspirar essa nova entidade. Mas sobre isso falaremos mais tarde.

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